Crônicas republicadas: Você não conhece o Mangueira - Anderson Tissa

Você não conhece o Mangueira

Anderson Tissa

Tenho poucas certezas na vida. A primeira delas é: sou uma simples pessoa que ainda não conhece nada. Outra certeza que tenho é o excepcional conhecimento de meus amigos. Estes possuem poderes mágicos ou são gênios divinos com o nível de sabedoria acima do intelecto humano. Sempre leram mais livros do que eu, conhecem mais política do que eu, visitaram mais estados do que eu, estiveram com muito mais mulheres do que eu, estudaram mais do que eu, fizeram mais gols do que eu. Dirigir então, comparado a eles sou apenas um passageiro no banco de trás.

 

Bebo? Bebo mal. Não sei quando a bebida é falsa, não sei diferenciar os sabores das cervejas. Mas, meus amigos sabem com os olhos vendados. E ainda bebem excessivamente, tenho um amigo que diz tomar uma caixa inteira sozinho. Não acabou seu tio ainda consegue beber mais do que ele. Toma doze cervejas no almoço, doze no jantar e cinco na cama com sua esposa. O curioso é que nunca tive o prazer de beber na companhia desse tio, deve estar ocupado com alguns donos de bar a sua procura.

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Hello Jim! - Crônicas de Anderson Tissa

10 de março de 2008

Hello Jim!

 Capítulo 1

As Portas se abrem

 Anderson Tissa

Meu braço estava trêmulo, por pouco não consigo erguer a última dose de uísque. Foram dezenas de copos daquele puro malte, minha garganta ingeriu toda a cevada engarrafada. Para alguns apreciadores dessa bebida, o single malt seria um músico solista se apresentando, enquanto o vated é uma orquestra tocando junta. Em algum momento de minha embriagada vida disseram-me que o single malt deveria ser consumido puro, sem gelo e em copos pequenos, respeitei as duas primeiras lições. O gargalo é a minha especialidade.

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As melhores promessas do mundo - Crônicas de Anderson Tissa

Crônica

27 de fevereiro de 2008

 

As melhores promessas do mundo

Anderson Tissa

Não faço idéia de quem seja o melhor pagador de promessas do mundo. No Brasil, Zé do Burro foi o melhor exemplo de pagador de promessas. O personagem de Dias Gomes atravessou um bom pedaço de chão nordestino para pagar sua divida divina. Seu melhor amigo, o burro, ficou doente e diante de um terreiro de candomblé, Zé, fez uma promessa. Caso seu burro se recuperasse, doaria seu pedaço de chão aos pobres e levaria de sua terra até a Catedral de Santa Bárbara em Salvador, uma cruz nas costas. E assim o fez. Na ficção, Zé do Burro está entre os melhores pagadores de promessas da história.

A promessa é na verdade um juramento. Não obstante, é geralmente associada como uma tradição religiosa, nomeadamente cristã, que consiste em prestar um culto a uma entidade específica em agradecimento. As promessas foram feitas para se transmitir segurança, pois se diz, que quem a faz pagará com a sua própria língua.

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O Exame - Crônicas de Anderson Tissa

Crônica

13 de fevereiro de 2008

 

O EXAME

Anderson Tissa

 

(Cenário: sala de clínica psiquiátrica. Zé Bruto, um paciente comum, está sentado em frente ao médico psiquiatra, fazendo o exame de sanidade mental).

Psiquiatra: Muito bem, esse teste de sanidade mental é simples. Vou lhe fazer algumas perguntas e o senhor só tem que responder. Está pronto?
Zé: Sim, estou pronto doutor.
Psiquiatra: qual o seu nome completo?
Zé: Zé Bruto.
Psiquiatra: Esse não é seu apelido?
Zé: Olhe bem pra minha cara, doutor. Sou sujeito homi. Macho não tem apelido.
Psiquiatra: O senhor é filiado em algum partido político?
Zé: Sim. Sou filiado ao PCC.
Psiquiatra: Já participou de alguma facção criminosa? Ou, coisa do gênero?
Zé: Gênero? Facção? Que diabos são isso? O doutor está falando difícil pra me humilhar? Olha que eu…

 

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AS PERGUNTAS QUE NÃO CALAM - Da série “Recordar é Viver” - Crônicas de Anderson Tissa

AS PERGUNTAS QUE NÃO CALAM


Entrevista coletiva de Ronaldo Fenômeno.


Assessor: Gostaria de agradecer a presença de Silvio Santos. Todos terão direito a uma pergunta.

Silvio Santos (SBT): Quem quer dinheiro?!

Assessor: Cinco perguntas para Silvio Santos!

Silvio Santos (SBT): Você veio com a caravana de onde?

Ronaldo: De Madrid.

Silvio Santos (SBT): O que você faz em Madrid?

Ronaldo: Sou jogador de futebol.

Silvio Santos (SBT): E quanto ganha um jogador de futebol em Madrid?

Ronaldo: O necessário.

Silvio Santos (SBT): Pagou em dia o carnê do baú?

Ronaldo: Eu prefiro a tele-sena.

Silvio Santos (SBT): Obrigado! Todos comigo! “É ritmo! É ritmo de festa…”

Assessor: Vamos dar sequência.

Datena (Band): Qual a sua opinião sobre a sanguinária violência que o PCC comandou em São Paulo?

Ronaldo: …

Assessor: Próximo!

Garotas que dizem NI (Época): Quando dizem que você é um fenômeno, isso inclui o …

Ronaldo: Entendi! Acho que sim. Meus dentes são um pouco avantajados, mas o importante é treinar duro para conseguirmos um bom resultado.

Jorge Kajuru (SBT): A empresa que te patrocina e também escraviza menores no Paquistão, para fazer sapato, pode prejudicar a seleção na copa? E nem pense em amarelar! Comigo a cobra fuma! Pode responder. Quero ver se alguém me cala. Hoje não tem governador para me tirar daqui! Responda!

Ronaldo: Qual é mesmo a pergunta?

Assessor: Próximo!

Juca Kfouri (ESPN): Você vai para o Corinthians depois da copa?

Ronaldo: (Risos). Você é engraçado! (Gargalhadas).

Galvão Bueno (Globo): Rooooonaldinho!!!

Ronaldo: Olá.

Milton Neves (Record): Faça como o Ronaldo, use Nike! O melhor material esportivo do mundo. Gol de placa é só com a Nike! O patrocinador oficial do Ronaldo, da seleção e futuramente do Milton Neves.

Ronaldo: Prometo um gol de voleio.

PVC (ESPN): Se fizer três gols na copa, você será o maior artilheiro de todas. Verdadeiro ou falso?

Ronaldo: Qual é a terceira opção?

Fátima Bernardes (Globo): E a copa?

Ronaldo: A copa será em junho.

Leão Lobo (Band): Você vai se casar com a Raica de Oliveira?

Ronaldo: Estou focado na copa.

Repórter Vesgo (Rede Tv): A Cicarelli tem seis dedos?

Ronaldo: Juro que nunca reparei os dedos dela.

Pedro Bial (Globo): Terminando a copa, assine o contrato com a gente. Você vai ser a estrela do BBB7.

Ronaldo: Infelizmente não consiguo ficar em casa.

Diogo Mainardi (Veja): O senhor é um homem politizado, um colaborador para o desenvolvimento do esporte e da cultura, um verdadeiro mecenas…

Ronaldo: Eu?!

Diogo Mainardi (Veja): … eu gostaria que o senhor fizesse uma análise crítica sobre a reforma política e do atual governo do PT, enfocando os principais escândalos do governo Lula. O senhor pode contribuir com sua sábia opinião e amplo conhecimento político?

Ronaldo: É… é psicologico, né? É… é… é…

Assessor: Por favor o próximo!

Paulo Bonfá e Marco Bianchi (MTV): Atualmente o seu principal problema, dentro de campo, são as lesões. O motivo de você se machucar bastante, são as entradas duras por trás?

Ronaldo: Acredito que sim. Os zagueiros estão pegando pesado.

Todos: Hummm!

Assessor: A entrevista deve continuar.

Zuenir Ventura (O Globo): Faltam poucos dias para a copa. Você está em forma para esse torneio?

Ronaldo: Não estou autorizado a responder essa pergunta.

Ícaro de Paulo (Globo): Pode desliga!

Assessor: Está encerrada a entrevista. Vistam as camisas, peguem as bandeiras e comprem as cervejas. Seremos hexa!


Em Busca do Bauru Perdido - Crônica de Anderson Tissa

Crônica

24 de janeiro de 2008

Em Busca do Bauru Perdido

Anderson Tissa

 

Não suporto lanchonetes. Principalmente o Mcdonalds e o Bob’s. Além de o lanche ser de baixa qualidade, a propaganda é enganativa. Repare nas fotos dos sanduíches nessas lanchonetes. São enormes. Iguais aos sanduíches dos Flinstones, a ilusão nos faz imaginar que o recheio não cabe no pão. Precisaria de toda a equipe do Fotografu para acabar com um. Na dura e crua realidade, o sanduíche assemelha-se a um pãozinho de queijo, porém recheado. E pão-de-queijo por pão-de-queijo prefiro o tradicional mineiro. Já tentei montar o meu próprio sanduíche, mas foi em vão. Não aceitam alterar o seu delicadíssimo cardápio. Falando nisso, quer coisa pior que picles no pão.

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O Homem e Seus Medos - Crônicas de Anderson Tissa

Crônica

15 de janeiro de 2008

 

O Homem e Seus Medos

 Anderson Tissa

Serei franco. As mulheres têm seus distúrbios hormonais, nos quais resultam em uma ação contingente no organismo, causando ataques histéricos, mal-humor, irritação, mania compulsiva por organização, comportamento hostil ao se debater com uma cantada que provoca ou desperta o riso ou o escárnio, disposição para agredir com objetos cortantes pessoas do sexo oposto e, a pior, falta de desejo sexual. Porém, são decididas, enfrentam os obstáculos com ânimo, com energia diante do perigo. São audaciosas, me espanto em ver como olham em nossos olhos e nos desafiam com toda segurança.

E nós homens? Nós, os machões, não temos medo de nada. Somos providos de uma técnica ilusória que pelo mais incrível insiste em fingir funcionar. As mulheres colaboram em acreditar nessa farsa histórica. São tão generosas, a ponto de se contentarem com um marmanjo disfarçado de herói. E nós homens? Sempre exigentes com nossas garotas. O cúmulo do egoísmo é ser homem. Reclamamos absurdamente por espera-las se trocarem. E no fim, elas se arrumam pra nós.

Homem repara mais que mulher. Nós homens sequer damos o trabalho de olhar para alguma mulher desarrumada. Salto, cabelos em ordem, acessórios chamativos e roupas socialmente provocantes são quesitos relevantes da aprovação masculina. Você já saiu com sua mulher desarrumada? E ela já aturou você de chinelos, camisa cavada exibindo suas lindas axilas, limpando os dedos (cheios de gordura) na bermuda naquele churrasco. Somos também obcecados com o corpo escultural da mulher, o que prova a nossa falta de controle emocional. Os efeitos são visíveis ao passar uma bela mulher em frente a um de nós homens. 

Nós homens somos sensacionais em inventar desculpas. E as mulheres são espetaculares em se deixar acreditar nelas. Já inventei de tudo, até foguete. E quando você percebe que ela já percebeu a história para bovino relaxar, acaba percebendo que você percebeu tarde demais. Como demoramos a perceber as coisas. Somos os últimos, a saber. E elas, sempre sabem primeiro.

O pior de ser homem é terminar relacionamento. Como foi dito no primeiro parágrafo deste texto, as mulheres nos encaram. E nós homens? Já terminei um relacionamento pela internet, só pra não ver o rosto nervoso dela. Um amigo optou por decidir o futuro da parceira. “Você não deve ficar comigo, vá viajar, conhecer pessoas, estudar mais pense no seu futuro. Eu apenas atrapalho a sua vida”, palavras perfeitas. Quando tentamos acertar, erramos também: “Chega! Você só quer o meu dinheiro!”.  E a pior do ranking da perturbação moral. “Sabe o que é, você está meio gordinha”. Poderíamos fazer um torneio da desculpa mais ridícula.

As mulheres carregam o filho, os homens carregam o fardo de ser o sexo inferior. Ser mulher é ser linda, ser homem é ser bruto. Mulher é amor e homem sexo. A pétala perfeita é a mulher, para o homem sobra o talo. O homem o chute e a mulher o gol. O desfile para a mulher, o assovio para o homem. Brisa e vento. Beijo e beijo! São diferenças bizarras que se unem na mais perfeita combinação divina.

Depois de tantos elogios, garotas meu telefone é 34 – 9150…


Da janela do meu quarto - Crônicas de Anderson Tissa

Crônica
08 de janeiro de 2008

Da janela do meu quarto
Anderson Tissa

A noite, sem dúvidas, é o significado de inspiração. Os mistérios na bela escuridão tornam-se mais inexplicáveis. O constante suspense apresentado, nas diversas tonalidades de azul, impressiona pela realidade da dúvida imposta. Explico-me melhor: ao olhar o céu na noite anterior, percebi o quanto é prazeroso tentar imaginar os significados dos enigmas da natureza (se é que eles existem). Independente de crenças, cada um de nós consegue, de sua maneira, interpretar a reação desse culto secreto.

É evidente o resultado de acordo com o seu estado de humor. Em mim, o efeito permaneceu. Estava aborrecido e em frente aquele espetáculo, meu humor ainda não era dos melhores. Porém, confesso que me acalmei. Fui obrigado a assistir, reparei a cada movimento e tomei gosto.

Ali, entre o bloco A e o B, a cerca de dez metros (não faço idéia) do chão, do edifício que resido, minha janela emitia as projeções cinematográficas. No início era a cena perfeita de um apocalipse. O céu estava escuro e sombrio, o caminho das almas estava severamente proibido, as nuvens rosadas faziam fileiras de um lado ao outro deixando uma enorme vala no centro. No horizonte as poeiras flutuantes se encontravam, formando-se uma enorme nuvem negra.

Imaginei o fim dos tempos, não pelo motivo do meu aborrecimento, mas pela cena que se formava, era realmente o momento perfeito para acabar o mundo. Faltaram apenas os meteoros e a tempestade. As bolas de fogo riscando o céu, a água inundando os rios e os mares, um verdadeiro apocalipse! Sem frescura e terrível. Também imaginei um sacrifício. Uma mulher amarrada a uma fogueira sendo oferecida a um deus. Nativos mascarados em sua volta gritando e erguendo suas armas para o céu. Depois de sua morte a paz retornaria a tribo.

Mesmo a beleza destas cenas seja questionada por muitos, cabe a eu afirmar que a tragédia seria linda. Não sou nenhum defensor do anticristianismo e muito menos um adepto ao terrorismo, e sim um ser que admira a beleza natural das coisas. Não é belo ver uma mulher pedir por socorro enquanto espera a sua morte, mas é belo ver a construção da cena. A defesa da cultura e a crença da tribo e no show proporcionado pela natureza. E também não quero que o mundo acabe. Apenas fantasiei a formosura dos raios e das chamas, uma harmonia destrutiva.

Quero dizer que temos várias formas de interpretação no nosso dia. Recebemos mensagens a cada minuto da natureza e não temos tempo e nem paciência (essa é a mais verdadeira) de admirar essas transformações. É uma forma não pragmática de analisar o mundo. Tratar a imagem não como objeto visual, mas sim em um objeto de pensar e transformar essa metamorfose em um espetáculo.

Da janela do meu quarto: muito prazer meu nome é loucura.